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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sobre meninos pobres e lobos


Há pouco vi dois menininhos - 5 ou 6 anos - sendo levados pra escola. Mochilinha nas costas; mãos dadas com suas respectivas mães; agasalhados. Os dois aparentavam ser muito pobres. Um deles carregava um aviãozinho de papel, já amassado. O que carregava o aviãozinho apontou pro carro mais bonito que passava na rua e disse pro outro:


- Olha o meu carro, Rafael!


Pensei: ele ainda não sabe que vai crescer numa sociedade que faz escolta pra transportar o corpo acidentado de um cantor Pop enquanto deixaria ele morrer à míngua só porque um tem muito dinheiro e o outro só tem um aviãozinho de papel e alguma esperança.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Confissões profanas


As distâncias, temporais e espaciais, de nossa terra natal, de nosso passado, do que um dia marcou nossa experiência, às vezes nos faz colocar em suspensão nosso comprometimento com os destinos sociais, culturais e políticos de nossos conterrâneos. Ao visitar minha cidade neste feriado de Semana Santa, fui tomada por sensações muito fortes e contraditórias, que me deixaram por algumas horas sem palavras. As sensações porém não foram novas, mas antigas, recorrentes, e é delas que vou falar aqui nesta Bocagem. A primeira de 2011 por sinal - que demora!
A impressão não é original, parece ser comum a todo viajante que retorna a sua casa, rua, bairro, cidade, e imagino que país e planeta da infância. Fui tomada por um misto de nostalgia e alívio ao passar alguns dias em Congonhas, uma mistura de "como foi bom o que vivi aqui", ao lado de um "ainda bem que não moro mais aqui", um "sou filha disto, isto me faz ser o que sou", e um "como isso tudo está apartado de mim agora..."
Ver as rugas nascendo em minhas tias antes tão jovens, a idade fazendo a voz de minha mãe mais rouca, os cabelos de meus tios finalmente brancos, nossos priminhos ouvindo músicas de bandas que sequer ouvimos falar. Ver que o pequeno "beco" de nossas brincadeiras era na verdade uma rua bem normal, que a horta da vó não era assim lá uma selva de aventuras e perigos, que até mesmo a procissão da sexta-feira santa não demorava a eternidade. Além disso, deixamos de nos emocionar com o que antes era impactante - que medo dos soldados romanos! E passamos a ficar sentimentais com as luzinhas que atravessam as ruas, com a neblina que desce a cidade, com o doce de leite posto à mesa.
Mas o que dói no fundo d´alma e da consciência ao retornar a Congonhas é ver a serra diminuir a cada dia, não por uma impressão subjetiva, uma ilusão de infância, mas sim porque de repente a paisagem muda, os picos ficam planos, os verdes ficam vermelhos, os asfaltos também vermelhos, o minério invadindo o chão, o ar, a toalha da mesa. Como diz um tio meu, a montanha é hoje uma carcaça; por detrás dela não há um mundo, mas apenas máquinas.
A cidade de Congonhas guarda não apenas um passado coroado pela moda da sigla do Patrimônio, pelo qual é conhecida. É um berço da obra de arte, mas especialmente, da arte sacra, dos artistas pequenos, escondidos, que talharam as primeiras pedras sabão de nossas calçadas, que costuraram os primeiros telhados coloniais, que fizeram de forte seus balaústres, que ocuparam becos escuros, paredes curvas, sob o manto da religião, do ouro, da fé, da cura. Povo simples, de nomes comuns, famílias grandes, loucos nas ruas, sotaques matreiros, olhares amorosos, cansados e sempre à espera.
Terra de impérios da corrupção. A corrida do ouro é conhecida, antiga, marcada pela usura da Igreja e do Estado. Tão antiga, tão distante. Tão presente. Brasil do minério de ferro, cidade das grandes mineradoras, as principais estão todas lá. Devastando nossos morros, ocupando altos cargos, trazendo de longe operários sazonais e desvinculados. O poder público sequer se vende às grandes empresas estrangeiras. Permanece satisfeito com seus pequenos roubos diários, sua histórica incompetência política, seus desmandos corriqueiros, já (in)dignos de uma bocagem aqui do blog.
Isto aqui não é novidade pra ninguém, ninguém mesmo! Mas a vontade de dizer é mais forte do que os imperativos da novidade.
Quero mesmo acreditar que os ares do minério não poluirão nossa dignidade, que os ares efêmeros do presente não ofuscarão nossa História. Mas temo. E é preciso temer. Para que nã sejamos mais personagens tão reais de versos como o de nosso Boca do Inferno

"Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura."

sábado, 11 de dezembro de 2010

O Rei nu na Nova Juiz de Fora

Moro em Juiz de Fora. Quem mora aqui, ou por aqui transita com regularidade, sabe que a cidade está em obras. Nesse caso, vê-se por toda parte avisos como “desculpem-nos o transtorno, estamos em obra para melhor atendê-los”. O que, em outras palavras, quer dizer que estão desorganizando o cotidiano para, quando ele voltar à “normalidade”, a gente pense que ficou tudo lindo. A obra em questão consiste em asfaltar ruas asfaltadas. E ela não custou barato, acreditem.
Dois fatos – quase imperceptíveis – chamam a atenção para o que está acontecendo. O primeiro deles é que, apesar de termos aqui na cidade uma empresa pública que faz serviços de pavimentação, estamos pagando uma empresa privada de Uberaba para fazer o tal serviço. O segundo fato... Bem, o segundo fato merece um parágrafo à parte.
Quem passa na rua Olegário Maciel pode ver – ou não – algumas faixas alertando os pedestres e motoristas sobre os transtornos da obra. O aviso – não sei se por descaramento ou distração – diz que, naquele ponto (o MAIS ALTO DOS ARREDORES DO CENTRO da cidade), a obra vai solucionar o problema dos PONTOS DE ALAGAMENTO.
Pontos de alagamento? É isso mesmo?
Sim. Pontos de alagamento. Num alto de morro no qual água nenhuma resiste à tentação de rolar ladeira abaixo.
Isso me lembrou a fábula do rei nu. Algum alfaiate espertinho quis – e conseguiu – se aproveitar da vaidade do rei para vender-lhe uma roupa feita de tecido invisível. A justificativa do alfaiate: só vê quem é inteligente!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Quem dá mais? O leilão continua...


Engraçado como mesmo em um lugar sem lugar, repleto de virtualidades e efemeridades, leitores que são denominados “usuários” e que em cima do pescoço carregam não um rosto, mas um avatar... Enfim, engraçado como até promessas feitas num B-L-O-G podem valer alguma coisa. Bem, estou aqui para pagar a bocagem prometida: sobre a arte redentora. O redemoinho que eu mesma causei quase me devora, mas vamos lá...
De quem e de quê a arte redime? Ao artista – me veio a primeira resposta – redimido ao encontrar na arte a maneira mais livre e plena de exercer sua criatividade. Mas, do outro lado do quadro, eis que encontramos um sujeito, espectador, redimido pela “iluminação do mundo e de si” que pode ser a arte daquele artista, este querendo ou não. (Agradeço ao Ed os comentários no primeiro texto).
Assim, podemos pensar que a qualidade de redenção não está apenas no “fazimento” da música, do poema, do filme, mas na impressão, apreensão, imersão que sons, letras, cores, luzes provocam no sujeito que ouve, lê, sente, cheira. Pouco importaria, assim, se a peça usufruída fosse reprodução, repetição, indústria cultural, o diabo!, se ela tocasse o sujeito. Este que busca ali não O belo, mas um belo. Subjetivo, sim. E ligado a trajetória dele.
Entretanto, repetição-reprodução tem um acionamento limitado, digamos subjetivista, parcial, que não mobilizaria desse sujeito a totalidade de suas possibilidades de sentir o belo – ou o grotesco, o que seja. Não estou fazendo aqui a defesa de uma arte que independe do seu público, mera ostentação, espírito bem aristocrata por sinal, arte pela arte. Mas de uma arte autêntica, não no sentido de originalidade irrestrita, mas de uma arte “sincera”, ligada a suas origens, ao seu criador e, ao mesmo tempo, potencialmente universalizável.
Aqui, entra arte abstrata,concreta, moda de viola, de rua, teatro de homens ou de bonecos, orquestra sinfônica, de câmara, de pífano, dança, poesia, cordel, prosa, blog. Desde que tivesse aquela vontade de fazer “abrir as janelas da vida”, de quem faz, de quem sente.



(foto retirada do site português www.teatromicaelense.pt)

domingo, 3 de outubro de 2010

E o leite mau na cara dos caretas


Não sei porque cargas d´água me veio por esses dias uma lembrança de minha terra natal. De uma época em que minha pequena cidade era circundada mais por minérios do que mineradoras. Lá, nesse tempo e espaço passados, política era uma coisa muito estranha. Dos 20 anos que vivi naquela terra, vi 2 homens prefeitos. Antes de eu me dar por gente, eles já deviam brincar de dança da cadeira no excelentíssimo gabinete municipal. Engraçado que entrava e saía eleição, mudava-se apenas o tipo de corja que cada um dos dois levava consigo para, como diziam os mais ou menos críticos, “mamar nas tetas”. Assim, trocavam-se apenas as peças dos cabides de empregos, que se estendiam por uma longa arara de incompetência e interesse. Lembro então agora que votar era uma questão de escolher um dos dois personagens/personalidades, entre “o que rouba mas faz” e “o que rouba mas pensa”. E escolher, assim, qual grupo ocuparia os cargos de (des) confiança. Hoje ainda me esforço para recordar sob quais siglas cada um desses homens se disfarçavam – acho quer PL e PSDB – mas como eu quero dizer aqui, isso não fazia lá muita diferença. Quando cresci, descobri que isso não era uma particularidade daquela terrinha, mas um tipinho muito generalizado da política de nosso “Brasil profundo” – e também do "raso".
Qualquer semelhança não deve ser mera coincidência. Como dizem muitos por aí, até mesmo os cidadãos mais distraídos, escolher entre o azul , o vermelho e o verde tem um sentido meio "bobo" esse ano. Vamos às urnas votar em uma personalidade e sua respectiva corja, chamada de equipe, aliados, ou qualquer sinônimo que nomeie os ocupadores dos cabides. Claro, não significa que não faz diferença ter o “Zé” ou “a mulher do presidente” na direção de nosso país. O problema é que, com uma campanha pautada em qualquer coisa menos projeto de governo – o que torna logicamente impossível haver “debate” na TV, mas apenas uma conversa de surdos – fica, digamos, a “sensação” de que hoje vamos escolher qual elite vai nos sugar e qual cara feia a gente prefere ver por mais tempo, pelo menos pelos próximos 4 anos.
Igualzinho era na minha terra natal...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O assum preto de Minerva

Um amigo que julgo ser o mais esperto que eu conheço me levou pra conhecer um candidato a deputado federal. Disse que era uma ‘bocada’ boa.
Cheguei lá e uma secretária bonita anotou meus dados. Nome. Endereço. Telefone. Documentos (“Principalmente o Título de Eleitor”, disse ela). Depois fomos pra uma salinha até bonita, um escritoriozinho com santinho do candidato pra todo lado.
Uns minutos depois entrou o candidato. Se apresentou como “Doutor Fulano”. Conferiu se a moça bonita da recepção tinha recolhido meus ‘dados’. Daí começou a bocada.
Me ofereceu gasolina de graça durante toda a campanha, desde que eu colasse adesivos com a cara e o nome dele no meu carro e convencesse mais umas trinta pessoas a votar nele também. Depois ofereceu isenção de IPTU se eu tivesse um terreno vazio pra botar aqueles outdoor (que não são outdoor, porque o prefeito poibiu), e me garantiu que tem amigos que vão cuidar para que não chegue cobrança do imposto pra mim no próximo ano.
Ele chamou a gostosona da entrada e mandou ela anotar a placa do meu carro e o número da minha carteira de habilitação. Me entregou uma sacola com os adesivos e o endereço do posto de gasolina onde eu, desde então, encho o tanque sem pagar nenhum centavo.
Antes que eu saísse do escritório ele ainda me ofereceu cinqüenta conto por semana pra eu balangar bandeira com o nome dele na rua e mais cinqüenta conto pra eu fazer boca de urna. Eu topei tudo. Claro! Eu não sou besta!
Eu nem ia votar nele não. Eu queria era a ‘bocada’. Mas o doutor me convenceu quando falou aquela coisa que eu achei a frase mais linda saída da boca de um candidato.
Eu perguntei pra ele:
- Oh Doutor, eu até boto os adesivos no carro e coloco os outdoor que não são outdoor no meu lote, mas como eu vou convencer o pessoal a votar no senhor? Eu nem sei o que dizer pra eles.
Aí veio a frase, quase uma epifania:
- Não precisa, meu querido. Eles vão ver a minha foto com o número do lado. O número é bem fácil de decorar. Além do mais, o assum preto de minerva ouve muito bem, mas tem uns olhos que nada vê...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Quem dá mais?


Em alguns momentos de nossa humanidade, homens e mulheres tomaram como tarefa responder a uma questão um tanto futurológica: o caminho da arte seria a redenção ou a fetichização? Embolados nessa pergunta, que se repetiu durante diferentes pontos de nossa retinha linha do “progresso” “moderno”, estavam diferentes sentimentos e perspectivas diante do mundo e de sua arte. Sentimentos que oscilavam entre a fé na citada linha; nostalgia de um momento anterior à linha, mais puro e criativo; pessimismo na desenfreada fragmentação de nossa existência. Não há, entretanto, posições seguras nessas percepções, nem polarizações claras e definitivas, mas sim muita ambigüidade e indeterminação. De um lado, esta tal fragmentação mencionada significava para alguns desses homens e mulheres um produto inexorável de nosso caminho rumo à humanidade, que nos conduzia, entretanto, à uma separação – eficaz para nosso progresso, mortal para nossa polissemia - dos mundos da arte, da ciência, da indústria, da cultura, da crença, da moral... De outro lado, essa própria separação representava, para esses mesmos ou para outros homens e mulheres, a autonomização desses campos de conhecimento e prática da vida. Se isolarmos por um momento os outros “mundos” e nos determos ao tema da arte, ficamos então com a questão inicial. Nesse desvario, a arte se estabeleceria, depois de tal fragmentação, depois do que todo mundo ficou conhecendo como indústria cultural, como fetichização, no sentido de se tornar um campo isolado dos outros, gerando suas próprias leis de produção, ou melhor, de mera reprodução, fadada a tornar-se mercadoria como tudo o que entra naquela tempestade chamada progresso? Ou se estabeleceria, na medida em que é, daquela maneira, tornada autônoma, um mundo de tal maneira independente das correntes dos outros campos, que resguardaria em seu domínio as possibilidades redentoras de que a humanidade necessita e na qual poderia beber, tais como a liberdade e a criatividade?

Sem ser a pessoa mais pessimista do mundo, tampouco sendo dotada de qualquer dom de adivinhação, ou qualquer brilhantismo ou autoridade para dar o diagnóstico... Enfim, com toda a licença da BOCAGEM: tendo a achar que estamos mais no caminho da fetichização do que no da redenção. Dizem por aí que isso é culpa da privada do Duchamp, ou da Semana da Arte Moderna. Mas não é o caso. O fato é que, mesmo a atual onda de buscar uma arte vinculada às experiências cotidianas e rotineiras de seus criadores, o que se tem visto é, senão mera reprodução, simples descontextualização com pretexto de “resgate” e salvação de uma cultura “perdida”, por praticantes pouco ligados a esse tal cotidiano original de criação. Não só a forma e o conteúdo da arte é repetido, ainda que “remasterizado”, mas também a própria – a incansável, clichê, sem imaginação, pouco intuitiva – busca dos artistas pelos centros de produção e divulgação. Ou seja, preferem reclamar da baixa capacidade de captação, recepção e compreensão de sua arte pelos seus conterrâneos e buscarem um lugar ao sol nas grandes metrópoles – onde encontram mais uns milhares fazendo a mesma coisa e que só chegam a avistar uma pontinha do raio do sol quando já deixaram de ser o que eram, pra virar alguma coisa tocável na MTV.

Acredito, porém, que tem gente no caminho da arte redentora. Mas isso fica pra próxima bocagem.

sábado, 4 de setembro de 2010

Puxando papo


Porque tem tanta gente escrevendo e pouca lendo. Porque a gente reclama, tagarela, xinga, proseia, argumenta, concorda, disconcorda, respira fundo... toma um café, um suco de maracujá pra acalmar os nervos aflorados pela caféina e alguma bebida alcóolica pra que o maracujá não nos faça lembrar das coisas. Porque esse-mundo-tá-virado, no-meu-tempo-não-era-assim, como-diziam-os-gregos, como-fazem-os-índios. Porque os políticos-desse-país, os jovens-de-hoje, meu síndico-sem-amigos, meu amigo-frustrado e todas as pessoas sem sexo e/ou poesia na vida. Porque a cultura ocupa 5 páginas de um jornal de 30, sendo 1 agenda e 3 resumo das novelas. Porque existe "Rebolation". Porque nossa política é disputada entre Tiririca e Mulher Fruta. Porque o Serra só falta cortar um dedo e aprender a falar com a língua presa. Porque mudaram o penteado da Dilma e agora seu cabelo, segundo especialistas, é igual ao do Lula. Porque a candidata com a pauta mais avançada da atualidade - a do ambientalismo - é evangélica. Porque a mídia é feita de falsas polêmicas, e realidade, realidade mesmo, dizem, está nas telenovelas. Porque tem UPP´s, UPA´s e yuppies. Porque de uns tempos pra cá, a Al Jazira passou a fazer parte do giro de notícias do Jornal Hoje, lado a lado com BBC, NYTimes e Le Monde. E também de uns tempos pra cá, sumiu o disquete, o hífen e o JB no papel jornal, e nasceu o celular, metrossexual, rúcula, stress e o caractere. Porque ninguém consegue ler mais do que esse número de caracteres.